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Pri e Fah (Pink Touch): a festa mudou ou as pessoas mudaram?

Elas são DJs há 20 anos e estão juntas há 20 anos. Pri e Fah, do Pink Touch, contam o que mudou na pista, e o que isso diz sobre as pessoas.

Anfitriã: Angélica NascimentoConvidada: Pri e Fah (Pink Touch)

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"Elas são DJs há 20 anos e estão juntas há 20 anos. Pri e Fah, do Pink Touch, contam o que mudou na pista, e o que isso diz sobre as pessoas."

A festa mudou, ou as pessoas mudaram? É a pergunta que conduz a conversa de Angélica Nascimento com Pri e Fah, DJs e casal por trás do projeto Pink Touch, no segundo episódio do IDHAN Sala 01 Podcast, gravado ao vivo no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá, em Santa Rita do Sapucaí (MG), durante o Espaço D2. Vinte anos de música eletrônica, resistência de gênero na cena e uma dupla que é também um casal, dentro e fora do palco.

De Trinity a Pink Touch

Pri e Fah tocam juntas há 20 anos, o mesmo tempo que estão juntas como casal. Começaram com o Trinity, projeto voltado ao house music, sem pensar em carreira ou dinheiro: queriam, nas palavras delas, “estar no lugar do DJ, sentir o que o DJ sentia”. Com o tempo, o som das duas foi se conectando a algo mais underground e introspectivo, em contraste com a pegada do Trinity. Em vez de forçar essa mudança dentro do projeto original, criaram um segundo: o Pink Touch, nome que carrega, segundo elas, “o toque feminino na cena underground”.

Um Gol velho, um mapa impresso e um curso de três meses num fim de semana

Sem nenhum curso de DJ disponível na região na época, a dupla precisou improvisar para aprender o ofício. Pegaram um Gol velho e foram para São Paulo com a rota impressa num papel, negociando um curso que normalmente durava três meses para fazer em um único fim de semana intensivo. O motivo era prático: as duas eram CLT, uma delas trabalhava até aos sábados, e não havia tempo nem dinheiro para ficar mais dias na cidade. Voltaram do curso e já foram tocar em seguida, no primeiro evento do Trinity Project.

Vinte anos de resistência por serem mulheres

A pergunta sobre como é ser DJ mulher expõe uma parte dura da trajetória. Há duas décadas, não havia referência feminina no palco. Quando subiam para tocar, a plateia masculina observava cada detalhe à procura de erro, e a validação, quando vinha, era condicionada: “até que elas tocam bem”. Hoje, segundo elas, mulheres estão “tomando conta da cena”, mas o line-up médio de um evento de música eletrônica ainda é cerca de 90% masculino. A resposta prática da dupla foi editorial, não apenas discursiva: no evento que organizam, o Pink Touch and Friends, o line-up é praticamente 100% feminino, por escolha.

A festa mudou, ou as pessoas mudaram?

O coração da conversa é essa virada de comportamento. O público parou de beber como bebia e passou a exigir comida boa, banheiro limpo, água e conforto. A pandemia teve um papel direto nisso: as pessoas descobriram que ficar em casa também é bom, e passaram a exigir que sair de casa valesse a pena. O resultado é visível no mercado: os festivais gigantes sofreram, enquanto cresceu o ambiente intimista, festas de no máximo 150 pessoas, com gente de 40, 50 e 60 anos na pista, sem pressa de ir embora cedo. A própria festa delas migrou para o horário diurno, do meio-dia às dez da noite, e elas praticamente não tocam mais de madrugada, por escolha própria.

Da cabine de vidro para o meio da pista

Até o lugar físico do DJ mudou. Antes, era uma cabine de vidro lá no alto, onde ninguém via o rosto de quem estava tocando. Hoje, Pri e Fah tocam no meio do público, com as pessoas ao redor delas. A leitura que fazem desse deslocamento é direta: o público de hoje não quer só dançar, quer sentir conexão real com quem está do outro lado do som.

Tocar menos, com mais qualidade

No lado do negócio, a dupla descreve uma mudança deliberada de critério: hoje tocam menos, mas escolhem com mais cuidado onde tocar, priorizando festas que fazem sentido para o som e o propósito delas em vez de aceitar qualquer convite. Preferem esse tipo de curadoria a perseguir turnês ou lugares só pelo prestígio geográfico.

O que sustenta um casal que também é sócio

A parte final da conversa muda de registro: como é dividir vida pessoal e profissional integralmente, incluindo morar e trabalhar juntas todos os dias. A pandemia, quando passaram a fazer tudo lado a lado, virou um divisor de águas positivo na relação das duas. Fah resume o princípio central: escutar genuinamente a outra pessoa, mesmo quando você já acredita que o seu ponto de vista é o melhor, porque a perspectiva do outro sempre agrega ou muda algo. Pri complementa com o hábito de resolver desentendimentos rápido, sem deixar acumular: “ou eu rego a briga, ou eu rego a paz”.

Mensagem final: vai ter perrengue, mas não tente ser igual a ninguém

A mensagem final da dupla para quem está começando na música, ou em qualquer área criativa, é direta: vai ter dificuldade, mas se o trabalho for feito de coração, ele acontece. E o mais importante: parar de tentar ser igual a uma referência e assumir o próprio jeito, mesmo que ninguém tenha feito daquela forma antes. Para elas, é exatamente essa autenticidade, e não a imitação de quem já deu certo, que efetivamente conecta com o público.

Na fala da convidada

Trechos do episódio

  • "Na nossa época não tínhamos referência de mulher no palco. Subíamos e todos os homens ficavam olhando cada detalhe, procurando um erro. Às vezes falavam: até que elas tocam bem."

    Pri, Pink Touch

  • "Hoje o line-up de um evento ainda é 90% homem. Mas no nosso evento a gente prioriza mulheres: nosso line-up é praticamente 100% feminino, e a mulherada dá conta, lindamente."

    Fah, Pink Touch

  • "Antigamente o DJ ficava lá longe, numa sala de vidro, e ninguém via o rosto de quem estava tocando. Hoje a gente fica no meio, com o público em volta: as pessoas não querem só dançar, querem conexão com o artista."

    Fah, Pink Touch

  • "Para sair de casa hoje tem que valer a pena. Tem que ter um conforto no mínimo igual ao de casa, senão eu não saio, porque aqui eu tenho tudo."

    Pri, Pink Touch

  • "Não existe relacionamento construído, existe em construção. Trabalhar junto todo dia só funciona quando você escuta o outro: a perspectiva dela me enriquece, mesmo quando eu já achava que o meu jeito era o melhor."

    Fah, Pink Touch

  • "Vai ter perrengue. Mas se você faz do coração, você vai fazer sempre feliz. Seja você, faça do seu jeito, mesmo que ninguém nunca tenha feito assim."

    Pri e Fah, Pink Touch

Perguntas frequentes

Sobre este episódio

Por que 'a festa mudou', segundo Pri e Fah?
Porque as pessoas mudaram primeiro: passaram a buscar qualidade de vida, dormir cedo, se exercitar, e a exigir boa comida, banheiro limpo, hidratação e um conforto equivalente ao de casa antes de topar sair. A festa, dizem elas, só acompanhou essa mudança de prioridade.
Como foi o início de carreira de Pri e Fah como DJs?
Sem curso de DJ disponível na região, elas pegaram um carro velho, foram a São Paulo com um mapa impresso e negociaram fazer, num único fim de semana intensivo, um curso que normalmente durava três meses, porque as duas eram CLT (uma delas trabalhava até aos sábados) e não tinham tempo nem dinheiro para ficar mais dias na cidade.
Por que os eventos de música eletrônica migraram da madrugada para o período da tarde?
Segundo elas, a pandemia fez o público descobrir que ficar em casa também é bom, e passou a exigir que sair de casa valesse a pena. Isso, somado à busca por mais qualidade de vida, fez os festivais gigantes perderem força e os eventos intimistas e diurnos crescerem. O evento delas, o Pink Touch and Friends, roda do meio-dia às 22h, com no máximo 150 pessoas.
Como mudou a relação física entre DJ e público ao longo dos anos?
O DJ deixou de tocar isolado numa cabine de vidro no alto e passou a ficar no meio da pista, com o público ao redor. Segundo Pri e Fah, isso reflete um desejo maior do público de hoje: não querem só dançar, querem sentir conexão direta com quem está tocando.
Por que ainda existe resistência às mulheres DJs, segundo elas?
Porque, apesar da presença crescente de mulheres na cena, o line-up médio de um evento de música eletrônica ainda é cerca de 90% masculino. Como resposta prática, o evento delas prioriza mulheres deliberadamente, com line-up praticamente 100% feminino.
O que Pri e Fah aprenderam sobre trabalhar como casal e sócias ao mesmo tempo?
Que escutar genuinamente a outra pessoa é o que sustenta a parceria, e que resolver desentendimentos rapidamente evita que pequenos atritos virem ressentimento acumulado. A pandemia, quando passaram a trabalhar lado a lado o tempo todo, reforçou essa dinâmica em vez de desgastá-la.
Qual é o conselho final de Pri e Fah para quem está começando na música?
Aceitar que vai ter dificuldade, mas seguir em frente se o trabalho for feito de coração. E, principalmente, não tentar copiar ninguém: para elas, autenticidade, e não imitação, é o que realmente conecta com o público.
Pri e Fah (Pink Touch)

Pri e Fah (Pink Touch)

DJs há 20 anos, dupla e casal por trás dos projetos Trinity e Pink Touch

Pri e Fah começaram como DJs há duas décadas com o projeto Trinity, voltado ao house music, e criaram o Pink Touch para um som mais underground e introspectivo. Hoje comandam o evento Pink Touch and Friends em Santa Rita do Sapucaí e Pouso Alegre, com line-up majoritariamente feminino.

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